sábado, 17 de maio de 2014

Coruja é raro

O bom de ser coruja,
disse uma,
é ser águia ao inverso -
focando de longe,
mas todo o universo.

E assim verter tardes inteiras...
camuflada nos quintais,
tendo análises certeiras!

Como pode haver um bicho preferido?
Pelo amor não corrompido...?
Ouvi tudo fascinado.

O que valho sem vivências estrangeiras!
Viu projéteis darem a curva
e inimigos lado a lado.

Veio até com certo porte!
- e mãos finas, para que não sinta;
seus ouvidos, só furos
(e com nada se importe).

Por fim asas que só capa
e também nunca se iluda,
decolando em disparada
...por pedidos de ajuda...

Ela, ao contrário, não se mexe
não se aplica a qualquer teste.
Sua ousadia inconteste
é de ovo, paciente:

Eis a ave que não sente!
De virtudes reprovadas,

da moral inconsistente
morta a duras marteladas!

Diz que antes ruminando,
em fotossintese moral,
que do estalo ir se enganando
por um cúmulo banal;
E VAI-SE EMBORA...

E agora, que remorso da raridade...
alguém mais do corujal?


domingo, 20 de abril de 2014

Amar...gura













A inaugurada,

1. Não sem medo apostou na dor
enquanto o amor lhe iluminava...

2. Que até os olhos livrou da cena -
mas como o gozo, que perdura,
não se livrará deste poema.

3. Da fidedigna reação
vendo a mácula bater à porta
das suas juras de redenção...!

4. E seu rubrar por entre as pernas,
vibrantes, comigo junto,
em fuga das normas internas.

5. A da temperatura instável,
quando me pus a recitar
um poema abominável.

6. Abduzida a fins erógenos,
mas de acordo com os rumos
a que levam os novos córregos.

7. Resplandecente no dia seguinte!
De excitação não à toa: 
de zero passou a ter logo vinte.

Mas nesse humor tão precedente,
sem agüentar tanto requinte,
não tardou a cair doente...

Fisiodilema












Quanto mais aguentará a resistência
que me comprime por dentro
numa apneia de décadas?

Onde mais tomar um vento de quintal,
se hoje presto de assoalho 
em um canto de paredes altas?

O que mais dá pra cuspir por esses poros -
posso aroma, elixires?
mesmo o sal ainda se encontra...?

Quanto, em baldes, poderíamos medir?
Ainda assim sou pá de areia,
e vivo aquém da natureza...

E afinal -
quando um globo -
como devo me irromper?

Pelo estouro; sucumbido;
como feto mal gerido?

Ou da força a (re)nascer...?

domingo, 6 de abril de 2014

O senhor da lua

O homem exilado, no mundo
da impassível multidão de si mesmo,
esbarra ao andar, moribundo,
cantando e dançando versinhos a esmo.

E quando está fora -
mesmo que perto (longe, embora,
se desespere),
descoberto da capa que, suja,
não lhe dá forma, mas sugere -
vive de esbarrar e sentir nada:
castigos por viver a vida errada.

Ainda um olho que só espia
o alimenta de agonia
pelas cores que se batem.
E dos feixes, em vão, ele tenta
não tomar rumos errados -
mas tampouco isso o orienta.

Resta o vento que, sem culpa, 
rouba o som já rarefeito;
e, a viver só desse efeito,
rodopia e sobe à lua!

(Só não pense aquele charme
que da terra se insinua...)

Lá não há vida boa,
não germina um sonho à toa...
Há vastas terras, só que maciças,
e lampejos de solidão.

Lá, se exposta a resistência
(quando um nervo radiante),
mais sutil vem a demência.

Lá o herói cambaleante...
...como custa a abrir mão!

Leva no peito uns fragmentos
mas da lua a reputação!

E como isso basta...!
como isso basta para sua
índole casta, pobre,
humilde, que pouco se descobre!

Toupeira da lua...
Se rebaixa e como puta 
se insinua.
Se contenta com a beleza
fria e feia
que de esmola se oferece
ao virar da lua cheia.

Qualquer dia hei de buscá-lo,
ou tu escorres por um ralo
das crateras que vagueia.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Cerejeira

Minha carne ainda inflama
por aquele seu último toque:
quando tuas unhas eram de lama,
e, com os anéis enferrujados,
seus dedos me deram um choque...

Ah, que triste despedida!!
Tu, de cotidiano vestida,
a fechar nossa cortina...
O inverso que há no mundo
da gueixinha esparramada
que aromava minha rotina...










Seguiu que
me plantaram em um prato raso,
cercado por flores de vaso:
de vista a só cores gritantes
e hastes só duras -
nada como seus pés tão vibrantes
e as suas ternuras...

...

Mas está bem, 
eu devo crescer também.
E quem sabe eu atinja
o esplendor de minha copa
para que em riste, 
com a visão do sol
e em nada triste!,
renasça o amor em mil ninhos -
nem que dos passarinhos...!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Desabafo em conjunto











- Ah, quando pudemos ver (dos mortos,
de um sebo retirado de seus corpos)
cada aroma que sentiram,
cada ideia que ocorreu,
tudo impresso em folha A4
por esbanjo meu e teu - 
vivos, como sempre abusados,
remexendo no que já morreu...

- E o homem teve o que queria
sem saber no que ia dar:
como pálida estrela guia,
pôs-se a girar
confuso e solitário,
bem no centro de um universo
cuja casca, em seu inverso, 
era um espelho imaginário. 

- E o instinto feito em drama,
o já unânime condutor humano,
agora eximido da cisma de dama
assumiu, com cinismo,
sua carga de engano...

- Assediado pelas mãos próprias,
a ninguém mais pôde culpar
quando tudo se fez em cópias
de um todo asqueroso 
muito aquém de seu antigo lugar.

- E na gloriosa cama de deus -
de onde fluiriam 
o cúmulo dos sonhos meus!
eles que embalados
pela cálida e permanente paz 
da monstruosa onisciência, 
que tudo traz:
ternura, alento, potência! -
e deitados então sem resistência,
no berço que do suor herdamos
dormiríamos reinando de felicidade 
um sonho de criança de dez anos...

- Mas não!
Em acelerada erosão
mal vimos chegar foi o inferno
e o diabo, garçom da contradição!
contador da nossa vergonha!
desta vez escamado em cegonha
para de novo emboscar
esse cão!

- Ah, e o castigo infernal -
e o que mais faria mal? -
viver com prazer em excesso
sem saber discernir a quem...
e aturar só galhofas crismadas
que não fazem mais rir ninguém...

- E agora, então, o que passa?
Um enforcado absorto,
em tudo azarado,
pendurado e não morto -
sim, saciado de corpo,
mas para sempre disposto assim:
um nada sem gíria e sem raça
de exemplo exposto na praça.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O banho

"O Banho", Alfred Stevens (1867)

Na já minguante exposição impressionista,
em um panfleto que exaltava a fina arte,
sorri com linhas de exagero interpretado,
que viam guias de expressão em toda parte!

O mensageiro, tradutor por natureza,
arrebatado por seu jeito iluminado,
dizia ter se lambuzado na beleza
de um toque de intenção
- emancipado pela mão -
que irradiava pelo quadro.

Segundo ele, por aquelas pinceladas,
que, pelo estilo, já são meio desfocadas,
girava o curso de um relógio conotado,
que do eixo conduzia
tudo mais que ali havia
de valor acentuado.

Num bom exemplo, às 12 e 15 havia a bela
- em pose amável, tão formosa que era ela!

Com mais minutos, baila o livro esvoaçante...

- Teve ele a graciosa como par introvertido...?

 Pois nesse tempo em que o segundo é diluído,
flor sedosa escapula
no instante em que o ponteiro
cede ao quadro algum ruído.

E assim determinou esse delírio literário,
reputando o itinerário que a arte estipula.

Com o fim da vida junto foge o argumento,
e eu lamento, ó bom pintor!,
por quem te troça e manipula.