Alô Alô, senhoras e senhores, desculpem a intromissão!
venho aqui para preencher
esse barulho de percussão
bate bate que tanto bate,
vem dos pés e não dissipa;
se equilibra na bandeja, se segura em qualquer vão!
Se minha venda ambulante
não consegues bendizer,
o que fazes cedo assim
entalado desse jeito?
do outro lado do prazer
sem ter mais o que fazer?
não pareces mais que eu
só estufas o teu peito
Já passei da minha fase
de olhar pro teu calçado
e pensar pura besteira
do que acha em teu tablado...
hoje só o que me importa
ao entrar por aquela porta
é que leve meu produto e não se mostre acanhado
Não vês tu que o desconforto também a mim acomete?
que maluco com arbítrio escolhe de lata andar?
caixa prata, sobre rodas, peso bruto que desliza
pouco entra alguma brisa
pouco dá vazão o ar
não confie no teu corpo
não te ponha a espirrar
- sem contar com a proteção,
feita pela tua mão -
calha de todo carioca
tu assim contaminar!
E por mim que tenhas pena,
é isso mesmo que quero
mas não pense todo mal,
mesmo eu de mim pouco espero
hoje o sonho que me ocupa
- vejam só que pouco alento! -
é a dar aos filhos que alimento
a alegria de crescer
...
comprando à vontade
o que sofro pra vender
Sei que gostam do meu show
eu lhes trago diversão;
e se tu achas que não
por que desvia a atenção?
Eu sei bem tudo o que queres
quando o espaço está menor
quando olhas pela janela
e já tem tudo de cór
queres só um diferente
-não que tenha algo em mente;
de viagem delinquente
está farto o teu pensar;
e a cada compromisso
te sentes logo um submisso
ao sistema de metais
que te põe pra lá e pra cá
é aí que entro eu
parecendo um fariseu
tatuagem camuflada,
clarinha, mal pintada,
misturada sem capricho
em meio aos tons marrons
da minha pele desgastada
...
esperteza declarada
no sotaque repuxado
digno de um pé rapado
que sabe o pouco que tem
e usa-o como ninguém
E pode ver...
que na hora tu fraquejas!
não te quero enganar
ainda que de mim desfaças
sabes que sim...
te tenho na palmar
...
brinco com teus desejos
de trabalhar o paladar,
de levar aos teus amigos
esse brilho no olhar,
quando olhas bugiganga
que tu juras precisar
mas no fundo sabes bem
que só dura a sensação
enquanto os trocados teus
não descansam em minha mão
Por agora, meus senhores,
estou quase indo embora
falta pouco...
mais alguém?!
pelo menos uma esmola?
já me espera o outro trem
passem bem, até alguma outra hora